quarta-feira, abril 13, 2011


um olhar
um sentimento
o vento passou por mim
e soprou
em muita coisa
quase nada
sobras do tempo

o dorso branco
do cavalo magro
reluz na caatinga
na seca
na esperança de vida

sua cercas nos
cercam
os olhos cercam
claro cerrado

o pó da estrada
abraça os raios do sol
que vem da imensidão
do céu ardente

e a alma plaina
filtrada pelo verde
do infinito

uma ponta de vida
debaixo das secas nuvens
nas curvas da estrada
do horizonte luminoso
jan 1995



domingo, março 13, 2011

Caburé novamente

A primeira vez que estive em Caburé tudo era areia e um belo mirante de onde se via o mar separado do rio por uma pequena faixa de areia.
No ar sentia-se o gosto de água salobra*.
O rio, bom para se banhar, limpo e salado me chamava e mostrava sua vontade de me abraçar e levar-me embora maré abaixo.
Depois voltei, e por um tempo fiquei. Conheci gente, troquei idéias, nadei novamente nas águas salobras dessas margens maranhenses.
Deitei na rede e olhei as estrelas, infinitas, que esperavam a lua cheia.
A beira rio cantei as músicas que brotavam na mente e no coração.
Vi a vermelha revoada dos incontáveis Guarás que desfilavam em cima de nossas cabeças enquanto o sol nos dava adeus em um derretido mergulho nas águas límpidas do oceano.
agosto de 2005- Maranhão

saída da escola

Era manhã de domingo e o sol abraçava o chão de terra batida.
O som do motor ligado se confundia com a algazarra das crianças que se aprontavam para sair para o passeio.
Enquanto subiam nos carros, suas risadas misturadas com chapéus coloridos, mochilas, shorts e bonés a balançar com o vento, enchia a atmosfera marrom azulada de Barreirinhas.
A vizinha abria meia porta e colocava apenas o nariz para fora tentando entender o que se passava aqui fora.
A lembrança da chegada a Atins dias atrás, me levou àquele vilarejo por segundos. De volta a Barreirinhas pela passagem e uma bicicleta, me vejo sentada a observar o vizinho que retirava a sua rede-cama da varanda no intuito de começar seu dia.
Os minutos pareciam horas diante do olhar do senhor na varanda que observava a espera ansiosa das crianças.
A professora controlou tudo antes da partida no chão restou apenas a poeira banhada pelo sol que o esquentava.
agosto de 2005

quarta-feira, março 09, 2011

desejo

"Desejo primeiro que você ame,

E que amando, tambem seja amado.

E que se não for, seja breve em esquecer.

E que esquecendo, não guarde mágoa.

Desejo, pois, que não seja assim,

Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,

Que mesmo maus e inconsequentes,

Sejam corajosos e fiéis,

E que em pelo menos um deles

Você possa confiar sem duvidar.

E porque a vida é assim,

Desejo ainda que você tenha inimigos.

Nem muitos, nem poucos,

Mas na medida exata para que, algumas vezes,

Você se interpelo a respeito

De suas próprias certezas.

E que entre eles, haja um pelo menos que seja justo,

Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,

Mas não insubstituível.

E que nos maus momentos,

Quando nao restar mais nada,

Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,

Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,

Mas com os que erram muito e irremediavelmente,

E que fazendo bom uso dessa tolerancia,

Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,

Não amadureça depressa demais,

E que sendo maduro, não insista em rejuvenecer

E que sendo velho, não se dedique ao desespero.

Porque cada idade tem seu prazer e sua dor e é

Preciso deixar que entre eles

Escorram entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,

Não o ano todo, mas apenas um dia.

Mas que nesse dia descubra

Que o riso diário é bom,

O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra,

Com o máximo de urgência,

Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,

Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,

Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro

Erguer triunfante o seu canto matinal

Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,

Por mais minúscula que seja,

E acompanhe seu crescimento,

Para que você saiba de quantas

Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo outrossim, que você tenha dinheiro,

Porque é preciso ser prático.

E que pelo menos uma vez por ano

Coloque um pouco dele

Na sua frente e diga “Isso é meu”,

Só para que fique bem claro quem é dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus desafetos morra,

Por ele e por você,

Mas que se morrer, você possa chorar

Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,

Tenha uma boa mulher, que sendo mulher,

Tenha um bom homem

E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,

E quando estiverem exaustos e sorridentes,

Ainda haja amor para recomeçar.

E se tudo isso acontecer,

Não tenho mais nada a te desejar”.

[Vitor Hugo]

domingo, fevereiro 20, 2011

the fish need the sea

o sol bate forte
lembro-me de tempos longínquos em terras distantes.
onde o espírito voava mais alto que o corpo,
e o frescor da juventude renovava qualquer ânimo,
abatia qualquer cansaço e aplacava qualquer preocupação.
o sol sempre renova essa sensação de vitalização ao extremo
e, aliado à brisa suave que acaricia meu espírito cansado de guerra
me dá forças para sorrir com estas lembranças,mesmo em terras bem conhecidas.
a brisa parou, a música não.
escolho aquela que nesta manhã me toca e,
sentada no degrau da padoca onde as mesas foram confiscadas,
deixo minha mão fluir e a caneta escorrega pelo papel incessantemente.
não ouço nada além da música e o som das letras que pulam diante de meus olhos.
penso nos encontros e desencontros, em minhas amigas,
meus amores, minhas dores.
não somos perfeitos, mas porque insistimos em errar?
será que o tempo irá nos dar outra chance?
sentada aqui com meu cão amigo noto que a brisa me abandonou e o sol escalda o asfalto.
vontade de água em meu corpo, o corpo água.
sinto algo gelado em minha canela, gusmão se faz presente e pede atenção.
ele me faz companhia e me cobra por ela com seu sorriso prognata debaixo do focinho.
findo minha vitamina revigorante e me preparo para seguir nosso caminho.
a brisa me abraça por inteira brincando com as folhas do caderno,
como que dizendo: LEVANTA!
através da lentes escuras dos meus óculos, devoro o mundo
e deixo-me levar ao ouvir o arranjo de cordas que é tomado pela gaita de fole.
pouso o copo no balcão, agradeço e ganho um sorriso em troca.
ao olhar para trás, vejo que deixo no degrau os resquícios de erros e atos impensados do dia anterior.
hora de mover-se, late gusmão.
desço a rua sem destino e sem hora.
até o sol me expulsar da rua com sua força.
aquela mesma que me alimenta.

the fish need the sea

o sol bate forte
lembro-me de tempos longínquos, em terras distantes.
onde o espírito voava mais alto que o corpo,
e o frescor da juventude renovava qualquer ânimo,
abatia qualquer cansaço
e aplacava qualquer preocupação.
o sol sempre renova essa sensação de vitalização ao extremo.
o sol aliado à brisa suave que acaricia meu espírito cansado de guerra
e me dá forças para sorrir com estas lembranças,
mesmo em terras bem conhecidas.
a brisa parou, a música não.
escolho aquela que nesta manhã me toca e,
sentada no degrau da padoca onde as mesas foram confiscadas,
deixo minha mão fluir e a caneta escorrega pelo papel.
penso nos encontros de desencontros, em minhas amigas,
meus amores, minhas dores.
não somos perfeitos, mas porque insistimos em errar?
será que o tempo irá nos dar outra chance?
sentada aqui com meu cão amigo noto que a brisa me abandonou e o sol escalda o asfalto.
vontade de água em meu corpo,
o corpo água.
sinto algo gelado em minha canela, gusmão se faz presente e pede atenção.
ele me faz companhia e me cobra por ela com seu sorriso prognata debaixo do focinho.
findo minha vitamina revigorante e me preparo para seguir nosso caminho.
a brisa me abraça por inteira brincando com as folhas do caderno,
como que dizendo: LEVANTA!
através da lente escuro do meu óculos, devoro o mundo
e deixo-me levar pelo arranjo de cordas que é tomado pela gaita de fole.
deixo o copo no balcão, agradeço ganho um sorriso em troca e ao olhar para trás,
vejo que deixo no degrau os resquícios de erros e atos impensados do dia anterior.
hora de mover-se, late gusmão.
desço a rua sem destino e sem hora.
até o sol me expulsar da rua com sua força.
aquela mesma que me alimenta.




terça-feira, fevereiro 15, 2011

bicudos


A menina está com dificuldade de entrar em acordo com a seu gato.

Ela quer uma coisa e a moço quer outra, bem diferente do que ela quer.

Eles não chegam a um acordo, ele então faz menção de ceder mesmo a contragosto, mas ela inesperadamente tira o cellular da mão dele e joga no chão, o impedindo de usa-lo extamente no momento que ele estava usando.

Ao fazer isso, diz não querer mais um acordo e explica sua atitude como profilático para evitar brigas futuras. As afirmações dela se desfazem com seu ato.

Se fosse no velho oeste, ela seria julgada e desmetida, sendo informada que os atos explicam mas não justificam a atitude.

Se fosse hoje, acho que ela iria pra cama sozinha, quem sabe pensar sobre seus atos.

Imagem Soul Artesanal

segunda-feira, fevereiro 07, 2011


esta é uma rima de alegria,
da paisagem, da poesia.

fala de amizade e cor,
apostando na lealdade sem dor.

com amizade não se brinca,
é forte como um copo que sequer trinca.

amizade presente no amor, na gente,
onde a troca é o que há de mais quente.

tenha sempre guardado em seu bolso,
ou em algum lugar seguro como um armário ou um calabouço.

não venda não empreste nem dê
um dia você poderá devorá-lo com azeite de dendê.

sorria e não pense na tristeza,
pois isso é uma dádiva,
de inigualável beleza.


Navegar é preciso , viver não é preciso

Em todo lugar que meu olhar se fixa, sempre encontra uma imagem.

Para as nuvens nem olho mais, hoje consigo visualizar as formas mais interessantes até em uma poça de água no chuveiro: a cabeça do pato alienígena que devagar vai se transformando em um ganso observador.

Ainda dentro do chuveiro vejo no padrão que se repete na porta do box o rosto do sujeito mal encarado da esquina que se parece com o pirata de nossas aventuras de infância: muitos mini piratas povoam meu box.

E assim sigo em busca de novas imagens que talvez nunca conseguirei reproduzir mas que minha cabeça povoarão.

o não mergulho


De tão nebuloso, meus olhos não conseguem enxergar.

De tão solitário, seus olhos não conseguem me alcançar.

O futuro logo ali se faz presente,

Podendo então estar ausente.

E quem escolhi estar ao meu lado,

Sem poder olhar de frente, faz o caminho livre para o descaso.

O ouvido que não ouve, o coração que não bate,

O sentimento que não alcança.

A vida deixa de ser a arte do encontro pois uma hora cansa.

Logo ali te encontrei, logo ali te deixarei.

Se as lágrimas insistirem em tomar lugar do sorriso,

O pássaro baterá as asas para voo mais conciso.

Ganhará o azul do mar.

E secando as lágrimas, a falta de ar irá cessar.

Entre as montanhas, o vale ganhará a visão,

Do novo horizonte a ser alcançado com os pés no chão.

Assim termino essa rima tola igual a história de maria e joão,

Com meus sentimentos e coração escancarados em minha mão.

sábado, janeiro 22, 2011

respirar ar


não tente me colocar em uma gaiola,
achando que que você me terá.
não tente cortar minhas asas,
achando que matarás meu desejo de voar.
não tente me dar o silêncio,
achando que as coisas não são percebidas no vácuo.
não tente vendar meus olhos,
achando que não enxergo no escuro.
não tente tampar seu ouvido,
achando que não me expressarei.

só deixe fluir,
como o voo silencioso do pássaro que ganha o horizonte

sexta-feira, janeiro 21, 2011

falta ar

Muitas coisas me fazem sentir sua falta.

Desde a necessaire esquecida no banheiro, a toalha esperando ser usada, a dúvida quanto ao banho a ser tomado sozinha e escolha do vestido surrado que você adora.

A cama imensa é cruel, mas poder deixar a persiana aberta para o sol entrar pela manhã lembrando que o dia já começou é demais.

Estou fazendo progressos também. Caminho sozinha e apoio o pé no chão. Sinto os pés no chão, e a alma leve.

Vou fazer a autobiografia, a minha autobiografia.

Com o livro começado há dias nas mãos, e comprometida com o findar do livro, ouço um barulho cadenciado que me chama a atenção. Deixo o livro e abro a janela em busca do esclarecimento do mistério.

Vejo a chuva cessando e a cidade quase adormecida. Isso me acalma, observo o bairro de cima, quase não reconheço o restaurante japonês nosso vizinho que íamos juntos.

Viro-me para dividir a descoberta e fico com o silêncio e a sombra de tua ausência.

Tudo que olho e vejo, que escuto e ouço, que penso e repenso hoje especialmente está ligado a você.

sábado, janeiro 15, 2011

Schindler

Acabei de emudecer após o término do filme “A lista de Schindler “do Spielberg. O filme todo é baseado em fatos reais e, graças a isso que podemos exercer nossa sensibilidade para tentar imaginar o que foi a dura e cruel realidade da Segunda Guerra para os judeus poloneses.

Schindler me tocou pois, a princípio, se mostrou um empresário alemão ganancioso que encontrou na mão de obra judia barata, uma maneira de enriquecer na Cracóvia em Guerra. Mas que, ao longo do tempo, seu intuito se torna ajudá-los, gastando sua fortuna para salvar vidas que seriam eliminadas nos campos de concentração nazistas.

Chamou-me a atenção uma das última cenas do filme: depois que Schindler se despede dos 1.200 operários de sua famosa lista, que conseguiu evitar a ida para Auschwitz, o carro parte logo depois da meia noite, horário oficial do final da Segunda Guerra, deixando todos os judeus sobreviventes à espera de sua sorte.

Falo sobreviventes da guerra, mas me dei conta que a partir do momento em que um soldado russo vem até o campo no dia seguinte à rendição alemã, onde todos dormiram ao relento esperando o dia amanhecer, questionamentos como ”para onde vamos”, o que iremos comer e sera que há algum sobrevivente na Polonia, tomam conta de cada um.

A partir daquele tão sonhado momento, o da liberdade anunciada, vem com ele uma grande insegurança: aquelas pessoas foram abençoadas com a proteção de um homem do partido alemão que os trouxe para a sua fábrica e agora seria caçado pelos aliados, não tinham para onde ir.

Tinham caminhado tanto, tinham sobrevivido à uma guerra tão dura de maus tratos à alma e corpo. Agora se deparavam com o momento pós-guerra, onde escutam do soldado que eles não deveriam ir a oeste que não seriam bem recebidos, tão pouco para leste…então uma nova sombra cerca seu futuro: para onde ir, de onde recomeçar. Ali estava marcado que eles deveriam começar um longo caminho ligado novamente à sobrevivência.

E sobreviveram. Na última cena do filme, aparecem como os judeus Schindler que vieram prestar sua homenagem ao seu salvador. Nesta hora, podemos ver as personagens que, ao lado dos verdadeiros donos dos nomes que carregaram, colocam uma pedra no túmulo do verdadeiro Schindler que jaz debaixo do sol em Jerusalém. Nessa procissão, vemos o pequeno Olek que se jogou numa latrina para sobreviver, homem feito, a Sra Schindler que ficou ao lado dele em seu retorno a casa, e tantos outros que pudemos acompanhar e padecer em lágrimas só de imaginar o que estas pessoas passaram nos momentos retratados ao longo de mais de três horas de filme.

Não consigo imaginar o que cada um desses, me atrevo a chamar de heróis de guerra, passaram para conseguir sobreviver a anos de privações e injustiças, além das perdas intestimáveis de parentes que se perderam entre os 6 milhões de judeus que foram sacrificados como se suas vidas nada valesse. Mas consigo me sensibilizar com esse sofrimento e revoltar-me com a crueldade e perversidade de uma ideologia que pregava o ódio e a intolerância.

Já vi diversos filmes sobre o tema do Holocausto e já tive contato com sobreviventes, e não há nada mais nobre e honroso que poder ter contato com um sobrevivente. Alguém que, ao meu ver, que não tinha nada com isso e pagou um preço muito alto.

Muitos, com a própria vida.

quarta-feira, janeiro 12, 2011


às vezes o que a gente procura não é o que a gente procura, mas o que a gente acha.

terça-feira, janeiro 11, 2011

super o que?



Sou supersticiosa, isso é fato. Desde que tenho consciência do significado da palavra, a sigo e respeito profundamente desde os rastros mais superficiais até os mitos mais profundos.

Algumas crendices carrego da adolescência, como falar pão com manteiga ao se deparar com algum obstáculo físico entre duas pessoas que caminham lado a lado na rua para que não haja discordia entre elas ou não passar por debaixo de escadas encostadas em paredes. Outras aprendi pela vida e experiência como escutar aquela vozinha discreta que nos sussurra ao pé do ouvido dizendo para não pegar aquele caminho e virar na próxima esquina.

Acho que devo isso às minhas raízes mineiras, berço de muitas histórias sensasionalistas, outras apenas reais. Quando descobri que o lugar onde minha infância frequentou era a terra do famoso Chico Xavier, dei uma outra conotação às histórias que minhas tias e primos contavam. Comecei a olhar esses causos de maneria mais apurada e me abri para enxergar outros lados desse prisma.

Apenas quem convive comigo sabe que sou daquelas pessoas que dão importância às sincronicidades que nos são apresentadas na vida, muito discretas às vezes, mas que insistem em aparecer entre um dia e outro, no sonho ou na semana seguinte e por aí vai.

Algumas pessoas que me tem no convívio mais próximo não compreendem isso, outras ultrapassam meus limites, desafiando até minhas crenças, que prefiro manter de maneira mais discreta. Fato é que, ao abordar determinados assuntos, as pessoas nos mostram o quanto são crentes ou não e nos sinalizam o quanto devemos abordá-los em sua presença. Assim tomamos o devido cuidado com quem nos abrir, com quem falar sobre.

Meus amigos sempre ouvem algo aqui ou acolá de minha parte, alguns aprendem que essa é minha maneira de ser e sempre damos um jeito de equilibrar as coisas, usando o bom senso nas abordagens em geral. Os amigos se respeitam e mesmo que não compreendam algumas coisas, apenas escutam e não opinam. Outros já nos mostram sua face cética e deixam claro não querer falar sobre o assunto. Outros ainda se interessam e deixam que a curiosidade os leve a ouvir novas coisas, novos assuntos e novas teorias que podem nos levar a novas percepções de vida. Minimamente outras abordagens de nossa essência e do que aprendemos nessa nossa rápida passagem pela vida.

Neste Natal fui presenteada com um patuá. A corrente dourada pendia de um lado um olho grego[ou turco] e do outro um coração com sal grosso. A proteção contra o olho gordo se equilibrando com o sal, que tem a propriedade de atrair e destruir energias de baixa vibração, ou seja, o que chamam de "energia pesada" do astral.

Sai uns dias e deixei meu patuá dentro da cestinha de brincos na minha casa e me mandei para a praia, não iria levá-lo para o mato, pronto.

Saí em um ano e voltei em outro. Cheguei em um dia e no amanhecer do outro, levantei-me e pronto, o choque do batente da porta de madeira resultou em uma fratura transversal da segunda falange do quarto pododactilo. Que dor.

Fiquei com o pé pra cima uma semana inteira enlouquecendo, pois para quem está acostumado a ficar zanzando para cima e para baixo desde a hora que acorda até a hora que vai para a cama, mudar o ritmo da manhã para a tarde é algo que troca tuas perspectivas. Senti o que é ser limitado em termos de movimentação, votei a escrever e resgatei o antigo hábito de leitura, até reativei o abajour no criado mudo e dei o que meu corpo precisava: ralentar o ritmo. E como eu não havia obedecido, simplesmente tive que parar.

Enfim, dias passados, ainda convalecente, em meu primeiro dia debutando como alguém que sairia após dias de clausura no apartamento em Perdizes, banho tomado e tudo, lembro-me que o patuá havia sido esquecido desde o ano passado. Quando identifico a corrente dourada no meio dos brincos, dediquei-me a desenroscá-lo, coloquei-o no pescoço e sai pulando porta afora.

No hospital, à espera do raio X, pensei que teria que retirar o patuá para tirar a chapa, logo me adianto e chocada fico ao notar que o coração com o sal grosso está simplesmente quebrado apesar do olho turco está intacto.

Ele servia pra me proteger do que mesmo?

no dia 11 do 01 de dois mil e 11



Após tantos anos, esbarrar no passado pode desenterrar muitas lembranças.

Abrir aquela gaveta já trancada há tantos anos, pode te transportar para outros lugares e estar com outras pessoas.

São incríveis as viagens que podemos fazer sem sair de nossas cadeiras, em frente ao computador, olhando a televisão, relendo uma velha agenda ou mesmo tirando pó de fotografias antigas.

O desejo escondido nas palavras, no quase gesto, nas memórias apagadas pelo vento, se transformam em pegadas esfumaçadas no chão de terra batida.

Bom lembrar que a vida é boa e simples, como o espírito era leve, e mesmo assim, ao olharmos para trás, conseguimos ainda perceber nossa história escrita em rastros quase imperceptíveis.

Lembrar o quanto nos encantávamos com pequenos gestos, como era divertido apenas dar risadas e nos desafiar em conversas nada lacônicas sobre nossa existência, além de conseguir nos desfiar em novelos complicados de descobertas internas.

Na troca de sorriso que virava encantamento do mundo, com o mundo, para o mundo, era possível encontrar-se na essência que tinha o puro propósito de ser sentido.

Um velho amigo contou-me sobre uma fala de Martin Buber que ele havia conhecido há pouco: "liberdade e destino estão solenemente prometidos um para o outro em casamento e unidos pelo significado"

Fica então um beijo não dado, do sonho não realizado de tempos não vividos, na vã tentativa de apreender a suavidade do ar fresco de nuvens coloridas

No mistério do sentir que foi apagado, o sol some na névoa deixando rastros de sangue no horizonte rasgado.

quarta-feira, dezembro 22, 2010

neste mesmo lugar


Conheci estas pessoas em um mesmo lugar.

Cada um, ao longo do tempo de convívio conquistou o direito de ter seu lugar reservado dentro de mim e da minha história.

Olho para cada um nesta noite e consigo decifrá-los como se os conhecesse há anos.

Meu irmão, há uns dias, me disse que não precisava mais de amigos e que sua disponibilidade, abertura e paciência para que novas pessoas populassem seu tempo para conversas e trocas regados a cervejas por exemplo, estavam esgotadas.

Paro e observo a bagunça que serve de pano de fundo para a música que germinou de mais um encontro feliz neste mesmo lugar.

No meu caso, tenho que discordar de meu irmao e sigo no barco do que ensino ao meu filho: nosso coração tem espaço para muita gente. Neste momento meu coração está aberto para receber estas pessoas que encontrei neste lugar.

Foi neste mesmo lugar que ganhei o mais valioso dos presentes: meu amigo amante, que decidi levar comigo nessa caminhada não importando por onde esta confusa estrada nos levará.

Hoje me emociono com insistentes lágrimas que escorrem pelo rosto daquela que considero outro presente, que me recebeu e a parceria se fez de maneira tão natural. Tantos presentes em tantas pessoas, cada qual com sua particularidade e seu valor.

Lágrimas estas que marcam o final de uma fase, tão boa de trabalho duro, bons resultados, risadas recheadas de bom humor, vital e momentos difíceis, de ricos encontros nos jardins ensolarados neste mesmo lugar.

Neste mesmo lugar conheci gente que quero levar para minha vida, conheci gente que sei que não levarei, mas que ficará comigo de algum jeito, independentemente do que acontecerá em um eventual amanhecer cinzento, onde sera difícil reunir forças para se manter nesse mesmo lugar.

Ali aprendi, mais do que nunca, a exercer os princípios que levo comigo, a me enxergar como profissional, aceitando desafios a cada dia. Exercícios de ética, bondade e paciência permeam meus dias para chegar nesta noite com a sensação de nada saber: sei apenas ser eu sem melodramas nem politicagem. Puramente eu.

Hoje sei o quanto me faz bem estar perto destas pessoas que riem ao meu lado e me alimentam com sua alegria de simplesmente estar junto, que fazem a música que me inspira neste momento e que me dão a certeza que preciso ao saber que nelas encontrarei o apoio que preciso.

Quando precisar.

sexta-feira, setembro 17, 2010

AMISTAD


Amigo é insubstituível, não se compra, não se vende.

Chacoalha quando precisa chacoalhar.

Amigo cuida.

Dá colo nas horas difíceis.

As vezes a única coisa que precisa fazer é ouvir, sem dizer nada, e depois dar um abraço, daqueles que te fazem sentir único.

Amigo não se compra, não se vende e nem se aluga.

Chora junto e abraça, mesmo que virtualmente.

E não há distância que seja suficiente para separar a amizade de verdade.

A tecnologia invade e rompe toda e qualquer barreira.

Amigo pode ser do passado, do presente e até no futuro.

Nao há lacres, rótulos ou normas. Amigo se identifica, se encontra.

No fundo é a família que escolhemos e levamos conosco, ali naquele lugar especial, do lado esquerdo do peito, ja dizia o poeta.

Amigo te aguenta. Amigo te aceita.

Amigo te conhece como poucos, e ouso dizer que amigo às vezes saca mais de ti que você mesmo. Por isso que, por mais doído que seja, ele fala o que você precisa ouvir.

É um grande referencial de vida.

É um grande porto seguro.

É o grande exercício de exercitar-se como pessoa.

O uivo do vento espanta as palavras que soam como o mate amargo levado pela forca do vento

A adaga esfumacante ensina que o salgado da lágrima so afasta as duvidas surgidas da neblina

O cavalo branco foge e seus cascos estao enlameados, o controle das redeas é falso e o tombo por fim acontece

A floresta escura se apodera da sensaçao que toma conta do controle, do falso controle de controlar

A sensibilidade aguçada perde seu proprio controle, se esvaindo por onde encontra alguma fenda

E a vontade de deitar, fechar os olhos e esquecer, é o que predomina

Transbordar

Esgotar

Frio

Falar

Recomeçar

Buscar

Força

quarta-feira, setembro 01, 2010

Metro é a medida do verso


Ele me disse: ‘Para mim teus textos não tem métrica, acho que são um desabafo’,

‘Para mim está bem’, como se ele completasse antes de retomar a música com o violão.

Para mim não. São textos vindos lá de dentro. Estão prontos, e pronto!

Eu só os coloco em ordem de modo que fiquem claros.

Como David de Michelangelo: ele estava lá dentro do mármore, disse o artista.

Para mim, os textos e as palavras estão dentro de uma caixa, que quando é aberta,lá vem tudo junto, numa tacada só. Bom ter lápis e papel a mão, senão elas escapam e tomam a janela ganhando o mundo. E sem recuperar as palavras fugidias que escapam de minha compreensão, no final ficam sem o devido sentido.

E corro o risco de ficar na mão, esperando a próxima visita me deixando envolver pelo timbre de sua voz entre o dedilhar das cordas musicais.